O MusicBox, por baixo daquela ponte no Cais do Sodré, terá sido invadido por animais. Na noite de 21 de setembro, já 22, pois passava da meia-noite, o Cais do Sodré tinha as suas ruas cheias apesar da humidade que se alojava nas paredes. O MusicBox, esse, demorou a encher, e a sua lotação não ficou esgotada – mas quase, quando se faz as contas.
Os Maltês sobem ao palco com um à vontade e uma presença possante. Não de admirar, pois encontram-se amigos e pessoas conhecidas no público que lá pede uma cerveja, levanta os braços. E não fosse esta uma banda composta por elementos que lhes convém a designação de Super Grupo. Constituídos por João Neto, dos Oioai, Ricardo Frutuosom, ex-Toranja e Rádio Macau, Jonny Dinamite, dos Murdering Tripping Blues e Tiago Chefe, abordam o público com a facilidade e desenvoltura de quem tem já muita rodagem. “O papel, o papel é que manda!”
É essa atitude contestante e ambígua e punk, enlaçada em blues e rock’n’roll no seu estado puro, que os Maltês fizeram desfilar um autêntico jardim zoológico. Sempre com um comentário sobre o bicho a que se refere cada canção, o público que ainda se mantém ligeiramente afastado do palco é embalado como um arrepio e abanar de braços, como se estivesse adormecido antes. Missão cumprida.
O concerto de abertura termina com uma vibração no ar, que depois é substituída pela substituição de instrumentos, de cabos, de settings, enquanto que, tanto os TvRural como os Maltês, se dedicam a arrumar a casa. David Jacinto, Vasco Viana, João Pinheiro, Gonçalo Ferreira e David Santos põem-se em posição, e o coiote junta-se aos animais que foram antes listados. David Jacinto traz de novo a vontade de contestar, a recordação de que aquela noite não terá sido uma qualquer, subtilmente, pois como verdadeiro português, reivindica mas não chega ao obnóxio. “Hoje é uma noite de luta,” explica, antes dos primeiros acordes de “Navegadores de Recreio”, calmo em ritmo no início, mas com uma agressividade na letra do princípio ao fim, aquela que só se aceita com o enternecimento e familiaridade que se contém dentro do circulo de amigos que formam com a audiência logo de início. Porque afinal está tudo ali para o mesmo. Aliás, é essa mesma a característica fulcral, e não o simples fato de ser enunciado em português, que caracteriza os Tv Rural como uma banda à parte. Não caem no lirismo erudito, mas a conversa de amigos que se desenrola pelos versos não é estabelecida entre pessoas pouco inteligentes. Pelo contrário.
Aliada a essa inteligência de que o simples e familiar é sinónimo de articulação, a emotividade está sempre lá, latente, e só causa suspiros no final de cada canção, para que o organismo agarre mais oxigénio após a desgarrada de guitarras, bateria e vozes, em oposição à atitude sonhadora. É, no entanto, dramática: “Senta aí, bebe outro copo, Temos muito para falar”, canta Jacinto em “Assunto Sério”. Tratam de temas e expressões lusas como o apelo do “Mar” e aquele “Escafandro”, ainda se mantendo no território do segundo trabalho do grupo, «Filomena Grita!»
Só na quinta canção é que se aproximam, já sem camisola, pois o ambiente é forte e cada vez mais rotundo, de “Mulher da Minha Vida”, e introduzem o novo álbum, «A Balada do Coiote», lançado em maio. Apesar da pulsação menos desenfreada, encontra-se em vez o sentimento de serenata com a honestidade que não se encontra em pessoas preocupadas com politiquismos corretos. Todos os membros da banda cantam o coro, e é com as mãos enfiadas nos bolsos ou a sacudir a ponta de um cigarro para o chão que se consegue imaginar a admissão [e não a confissão, porque afinal, o pudor é um pouco desnecessário] algo exasperada de quererem ver a mulher das suas vidas sem roupa. “Bruxas” e “Dá-me Dor”, de execução esplêndida em palco, mas onde a bateria de João Pinheiro se salienta, continua a explorar este álbum mais recente, que funciona em palco com uma paixão que se confirma com suor dentro e fora dele, tendo até mais intensidade ao vivo.
É antes do single com mais exposição mediática que se dirigem mais demoradamente ao palco, para dedicar a canção a uma amiga que se encontra no público, pois é o seu aniversário. “É caso para dizer: faz-te mulher, rapariga!” exclama, e atingem um dos pontos altos do concerto em “Faz-te Homem, Rapaz!”. Por alguma razão é o tema com mais rodagem pela rádio: se existe alguma música que ponha o público a levantar pelo menos um pé ou a gingar as ancas, será aquela. Em continuação, para não arrefecer, o baloiçante “Quem Me Chamou” segue e puxa pelo coro do público, e o desespero de “Morde-me” é catártico. Se as pessoas no público deixaram de saber como se mexer ao ritmo invulgar, inconsistente e apressado da canção, não se importaram, deixando-se levar.
Quando a pergunta sobre o resultado emocional de cada concerto soou naquela mesma semana, dias antes do concerto, João Pinheiro admitiu numa entrevista que saiam do palco completamente embriagados. E isso nota-se, quer em canções de calma como “Sagres” ou naquelas com sabor a cabedal como “Quando Troveja”. O espernear de David Jacinto é nostálgico, mas completamente espontâneo, um expressar de não conformidade com os seus próprios ossos. As poses e olhares de desafio e apreciação entre os membros da banda são de quem já toca há muito tempo, com uma cumplicidade não só baseada na sincronia. Há berros e palmadas entre temas, e não perdem tempo, embalados na própria cadência da energia que eles próprios criam com acordes, notas e batidas, para passarem ao próximo tema. Não porque têm pressa, mas mesmo porque não querem (não podem) parar de tocar. Foi nesse crescendo, que se manteve no encore, que não deixaram ninguém indiferente, nem mesmo eles mesmo, pelo sorriso esgazeado de adrenalina. E é isso que se espera em palco, uma oportunidade não só de escapismo, mas ver escapar, e gostar de ver e ouvir o resultado de quando isso acontece.
Alinhamento:
Navegadores de Recreio
Assunto Sério
Mar
Escafandro
Mulher da Minha Vida
Bruxas
Dá-me Dor
Faz-te um Homem, Rapaz!
Quem me Chamou
Morde-me
Sagres
Quando Troveja
Correr de Olhos Fechados
Toma o Comprimido
Eu no Muro
~ENCORE~
Se
Aldeia
Fotografia: Carolina Rocha
Texto: Carolina Rocha
Agradecimentos: Let's Start A Fire
TV Rural: TV Rural
Local: MusicBox , Lisboa
Data: 21 de setembro de 2012
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