Antes do concerto dos Minta & The Brook Trout, no passado dia 20 de setembro, era algo difícil ter a certeza se o Salão Nobre do Conservatório Nacional iria encher ou não. Mas assim ficou perfeitamente preenchida, ainda porque a maior parte do público se terá concentrado à porta do edifício e não à porta do carismático salão para fumar um último cigarro e aproveitar o ar ainda veranil daquela noite. Afinal, estando à frente de uma referência da cultura e estilo de vida boémio-chic em Lisboa, mal seria não parecer que estávamos na Rua do Norte, a uns quarteirões de distância.
Se a quantidade de pessoas era difícil de discernir, já a caracterização da audiência compensava. Desde raparigas de franja farta e brincos com veados, aos rapazes de barba bem aparada, aos “Chucks” e “All Stars” - muitos, até na banda - aos mais adultos que mencionam que o local pouco mudou desde a última vez que lá passaram, até aos que conseguem reparar nas pequenas subtilezas pois lá estão constantemente. Afinal, metade do valor dos bilhetes contribui em parte para as obras de recuperação do Salão. Ao sinal de entrada, é um público tímido que se vai sentando nas cadeiras de madeira e estofo quase inexistente. Que fala baixo. Um fotógrafo lamenta a meia-luz, que lhe dificultaria o trabalho, decerto, mas emanava uma espécie de calor.
Quando entram, é sob aplausos, mas são discretos, sorriem. Os Minta & The Brook Trout são Francisca “Minta” Cortesão (voz e guitarra), Mariana Ricardo (voz, baixo e ukulele), Manuel Dordio (guitarra elétrica e lap steel) e Nuno Pessoa (bateria e percussão). O coro, composto por Salvador Menezes, Afonso Cabral (You Can't Win, Charlie Brown) e Madalena Palmeirim (Nome Comum). Nomes com renome, mas o grupo ainda tem muito que percorrer, e isso nota-se.
A voz de Francisca é sem mácula quando canta, e ela fá-lo com uma facilidade que causa inveja a muitos. Embora se mantenha num registo simples, a voz, adicionada a acordes acústicos e descomplicados, transforma as canções em algo acolhedor. Naquele salão, pelo menos durante alguns segundos, pede-se o outono, pois as canções envolvem como um cachecol já quente e um chá, e lembram já folhas acobreadas. Ou talvez fosse da luz e do padrão que o candeeiro espalhava pela parede, no fundo do palco.
O reportório é dividido entre vários temas antigos e a apresentação do novo álbum, «Olympia», lançado no passado dia 17 de setembro pela Optimus Discos. Algumas das canções escutadas através do disco apresentam uma finalidade algo brusca, mas essa característica parece ser justificada pelo modo como o grupo acaba de as cantar e tocar. Partilham-se sorrisos no palco, e a cumplicidade que se espalhava pelo nicho do público era partilhada pela própria banda.
A sensação de jam num alpendre faz com que o concerto pareça mais descontraído: Minta pergunta ao resto do grupo se não quer contar uma história para entreter o público, enquanto afina a guitarra, algo que o baterista rapidamente apanha para passar a batata quente e desafiar os outros membros. Não foi uma história mas uma pequena sessão de improviso entre guitarrista, baixista e baterista, na qual se identifica alguma forma primordial e quase não intencional de bossa nova. A esta cena, que se repetiu uma outra vez, acompanha umas entradas em falso de outras canções, sendo repetidas from the top, mesmo com um “um, dois, três, quatro”. Será enternecedor para alguns, ainda dada aquela sessão tão intimista quanto a que se desenrola, mas desapontante para aqueles que preferem uma maior precisão e o resultado mais ensaiado.
Ainda assim, a simplicidade tem algo que se lhe diga. Nenhum dos instrumentos a acompanhar Francisca Cortesão é espetacular, mas faz o seu devido trabalho ao criar uma ambiência que nos transporta para Cincinatti, ou para o Canadá, para onde veados (esses sim, reais e não apenas brincos) passeiam e pastam, por onde talvez Minta tenha passado na sua digressão com os They’re Heading West. Minta interage com o público cada vez que intervala uma canção, embora seja rápido, apresente a música, elogie o grupo (com um politicamente correto “uma das melhores bandas de Lisboa, para não chatear ninguém”), incluindo o coro com um “o coro mais lindo de Portugal”. Apesar da sua desenvoltura subtil, muito ao estilo de Daria [sim, essa Daria, da MTV dos anos 90], com a voz mais grave do que quando sobe e canta, o público acarinha-a. Só quando agradece a organização, admite “Estávamos desesperados para encontrar um sítio para lançar o disco, e acho que este está muito bem”.
É quando arriscam mais nas suas canções, no arranhar das guitarras, que o público aplaude mais. E é nisso que banda deve agarrar, apostar nas canções que levam o público como os passos de um gigante que parece perdido nos seus pensamentos. Dizem que no meio está a virtude; adiciona-se a essa teoria o conceito de que não existe nada de mal em acolher o público da forma como desejam que este receba o novo disco: com braços abertos e um abraço apertado vestido de lã de angorá, principalmente quando as canções falam de paisagens a serem apreciadas e vinho robusto, de famílias que magoam e sangram os seus próprios membros sem tentar sequer. São temas que agarram e apertam um pouco o coração de quem ouve e presta a devida atenção, acolchoados com um debruado simples, bonito, mas muito conhecido por entendidos do folk. Apesar da vontade de inclinar a cabeça para o lado, - para um ombro, talvez – suspirar e lembrar aquilo que alguém terá dito uns dias antes [e ainda remoê-lo mais uma vez], ainda há uma certa timidez que parece limitar o grupo a subir aquele muro que os transforma em algo mais palpável. A vontade está lá, e o público incentiva quando a demonstram, mas o à vontade ainda não está completamente formado, e é como se alguém olhasse para baixo, para um abismo, apesar dos avisos para não o fazer, e com essa mesma visão o equilíbrio se perca. O debruado poderá ser histórico, mas um rasgar estratégico pode formar arte no seu conceito mais único. E o errar é humano, e o practice makes perfect.
Como uma rede de segurança, o público adora o que foi “o concerto mais longo da história” da banda, e partilham sorrisos. Porque apesar de tudo, estes sonhos que partilham não são de todo frágeis.
Alinhamento:
The Right Boulevards
Future Me
Skin Deep
A Song to Celebrate Our Love
Gold
Blood and Bones
So the Dance
Eggshells
On Lust
From the Ground
Dream of You
Clever Knot
Falcon
To Disappear
Family
At Your Will
~Encore~
I Don’t Want To (original com Walter Benjamin)
Large Amounts
Para visualizar as galerias, deverá ter instalada a última versão do Adobe Flash Player
Fotografia: Carolina Rocha
Texto: Carolina Rocha
Agradecimentos: Let's Start A Fire
Banda: Minta & The Brook Trout
Local: Conservatório Nacional, Lisboa
Data: 20 de setembro de 2012
0 comentários:
Enviar um comentário