Ao anunciar a espera para o voo em direção a Lisboa no Twitter, Gavin Rossdale, vocalista dos Bush, confessa que estava ansioso por encontrar a “paixão” que decerto ia testemunhar dentro do público português. Depois do concerto no Coliseu dos Recreios, no domingo, dia 2 de setembro, o resultado não deverá ter defraudado a banda.
Apesar da subtil divulgação do evento, o Coliseu esteve cheio, mas confortável, longe do esmigalhar das lotações esgotadas. Apesar do espaço de meio passo entre cada membro da audiência, a elevada temperatura naquela noite, abafada pelo edifício e pela multidão, ainda transformou o ambiente nas plateias e bancadas fervente. A expectativa também não ajudava, o ar podia ter sido cortado com uma simples colher. Este é o primeiro concerto em terras lusas desde o hiato da banda de origem britânica que invadiu os billboards durante os anos 90 e em plena cena grunge. Apesar de um dia que normalmente é ocupado pelas lamúrias sobre a iminente semana de trabalho, as pessoas que entraram na sala de espetáculos estavam mais visivelmente interessadas em reviver o passado e - desengane-se quem pensar que muitos só lá estiveram para ouvir os temas antigos - conhecer a versão ao vivo dos novos temas do mais recente álbum «The Sea of Memories», de uns Bush apenas compostos por dois dos membros fundadores da banda e mais duas novas adições.
O espetáculo começa com o tema “Machinehead” e por momentos somos transportados para aqueles anos de estreia da banda, em que a maior parte do público era no mínimo adolescente. Por pouco parece impossível lembrar que Rossdale tem 46 anos. Salta, agarra na guitarra com a mesma força desgarrada de um jovem inexperiente e levado pelos elevados megahertz dos riffs. O público é rápido a reagir e a mostrar que o grupo é, mais que conhecido, é bem-vindo.
Apesar da enérgica introdução, a performance da banda parece arrastar-se nos primeiros momentos. Gavin Rossdale e a banda perdem-se nos acordes mas também em poses típicas do rock’n’roll, por muitos considerados clichés e obsoletos e raros em palco nos dias de hoje. Quando Gavin se encosta às costas do guitarrista Chris Traynor, não deixa de ser um momento levado pelo vintage que traz à superfície a nostalgia que muitos ali querem encontrar, apesar do grupo dar a entender que ainda não tinha aquecido. Entretanto passa “All My Life”, do último álbum, com o grupo a ser transportado por uma presença de palco tirada de uma aula de Basic Rockstar 101. Entretanto, a cerveja – grandes copos, até - passa de um lado para o outro. Não é só a banda que sua.
Ao som dos primeiros acordes de “The Chemicals Between Us”, uma das canções assinatura do grupo, o público exalta-se. São esses os temas que arrancam uma maior reação do mesmo, ainda que grande parte sabe a letra de todas as canções, independentemente da data de lançamento. Gavin Rossdale dirige-se ao público e agradece, tendo entretanto despido o casaco camuflado que trouxe vestido e com um físico que fez alguns senhores na bancada olhar para a barriga de cerveja que trouxeram consigo e muitas senhoras a dizer “agora sim”. 46 anos? Ninguém diria.
Tocam o single de estreia do seu último trabalho “The Sound of Winter”. “Esta é uma nova, vejam se conhecem.” A canção é forte, o público reconhece, mas ainda existe aquele compasso de espera entre os clássicos e as novidades. Só quando a voz de Rossdale se isola por entre os acordes e pulsar das canções que a identidade da banda que toca à nossa frente nestes novos temas se entranha na nossa pela. Talvez pelo hábito, o vocalista também parece destacar-se mais nas canções mais conhecidas. E é aí que a banda começa então a mostrar o que vale. Possivelmente por estratégia, desenrolam-se “Everything Zen” e “Swallowed”. Rossdale atira a guitarra para trás do corpo para se agarrar ao microfone, mas é por pouco tempo, voltando às cordas de novo. O desespero por trás de tudo ainda lá está, naquela voz arranhada e nos movimentos que se tornam mais erráticos, mais repetitivos e menos pensados, e por isso mais honestos. É isso que o público português gosta de ver: mesmo que a letra sejam as páginas amarelas, que o sentimento esteja ainda lá, palpável, à distância de um braço esticado. Algo que Rossdale não hesita em solicitar, tendo invadido o palco mais do que uma vez, acabando a canção “The Heart of the Matter” com um grito. Ainda assim, partilharam-se alguns olhares de espanto quando “Prizefighter” é dedicada a Cristiano Ronaldo. Depois é que alguém se lembra que o vocalista é, de facto, britânico, apreciador de futebol, e que na verdade o sotaque que serve de lembrete se perdeu por entre os anos de vivência em Los Angeles.
Os Bush agora são metade da banda que terá sido equiparada aos contemporâneos Smashing Pumpkins, Pearl Jam e Nirvana, mas os novos membros, Chris Traynor na guitarra e Corey Britz no baixo, apesar de não substituírem o alinhamento primo [o antigo guitarrista Nigel Pulsford deixou uma fasquia bastante alta], conseguem facilmente a simpatia do público: Traynor pela sua constante interação com a audiência e visível gosto em tocar, Britz pela precisão e ótima performance que obscura o seu semblante algo estereotípico de comedimento e alienamento atribuído aos baixistas. Robin Goodridge, o outro veterano, por trás da bateria, não desapontou quer em termos de performance quer em entusiasmo, ainda que se duvide o porquê de atirar a sua toalha para o público. Rock’n’roll, dude?
Após o mais intimista “Stand Up”, as luzes apagam-se e ouvem-se zumbidos. O reconhecimento é instantâneo: “Greedy Fly” começa, as vozes levantam-se e os braços também, alguns com as benditas cervejas e garrafas de águas [mais as primeiras que as segundas] que serviam como fonte fraca de refresco e outros com as câmaras, iPhones e telemóveis [a maioria, infelizmente]. A guitarra de Traynor soa espantosamente ao vivo com as pausas necessárias na tablatura a intervalar o pedido de ajuda de Rossdale e o baixo de Britz salienta-se com uma precisão que satisfaz os que consideram aquela linha de som como uma das sequências mais carismáticas da década de 90. “Alien” intervala e acalma os ânimos – passa mais alguém para buscar a sua 4ª cerveja, mas o calor destilava de tal forma que ninguém o culpa – mas é de pouca dura: Quando a música acaba, Gavin desaparece para os bastidores, um assistente do palco corre como se o inferno estivesse atrás dele para retirar o suporte do microfone, e quando começa “The Afterlife”, o vocalista corre sobre o palco para saltar de novo para o público, correndo pelas bancadas do coliseu inteiro, agarrando-se aos fãs, partilhando abraços, fotografias e um gole de cerveja. Euforia total, e apesar de a canção não ser um clássico [é também recente, do último trabalho do grupo], estabeleceu-se como a apoteose do espetáculo.
[De notar que apesar da confusão, Rossdale ainda pede licença para passar. É um senhor do rock mas com maneiras.]
Tanto o começo do alinhamento como o final foi pontuado por canções do primeiro álbum «Sixteen Stone». “Little Things” é a entrega final a um clássico. Traynor parece zangado com a sua guitarra, arranhando dela as notas. Rossdale vai ter com o veterano Goodridge e ataca também a bateria com uma baqueta. O baterista pede ainda mais entusiasmo para acabar em grande.
Mas ainda não era o final, e parecia que muitos o sabiam. Com a debandada típica do Coliseu, pediu-se o encore também com cânticos. Quando voltam, trazem covers e não temas da sua própria autoria, mas com canções como “Breathe” dos Pink Floyd e “Come Together” dos Beatles, ninguém pode errar. Esta última poderá ser uma das melhores versões do clássico, especialmente para quem gosta de ouvir uma boa guitarrada. No final, o rabo-de-cavalo de Rossdale, bem apertado no início, já quase não existe, de tanto headbanging, e é completamente suado e despenteado que se dirige ao público: “Nós viemos daqui para um dos nossos últimos concertos antes da nossa pausa, para um festival – peço desculpa, não me lembro do nome [escusam de ir ao Google: Vilar de Mouros, 2002]. Prometo que voltaremos para o ano. As pessoas dizem-nos que fazemos parte da banda sonora das suas vidas e tenho que dizer que é um privilégio enorme ouvi-lo.” E é assim que se conquista um público, não tanto pelas palavras mas por fazer questão de falar tanto com ele mesmo estando ofegante. “Glycerine” começa, no início com um solo acústico, a voz do vocalista a ser inundada pelas da audiência num dos momentos mais íntimos do concerto, e para culminar em grande com a introdução do resto do grupo.
O concerto termina finalmente com “Comedown”: “I don't want to come back down from this cloud”, canta em jeito de adeus, e a banda abruptamente abandona o palco. Rossdale, esse, ainda salta mais uma vez para o público, para falar com os fãs durante uns 2 minutos. Muitos saíram do Coliseu ainda na Cloud 9.
Alinhamento:
Machinhead
All My Life
The Chemicals Between Us
The Sound of Winter
Everything Zen
Swallowed
The Heart of the Matter
Prizefighter
Stand Up
Greedy Fly
Alien
The Afterlife
Little things
~ENCORE~
Breathe (cover Pink Floyd)
Come Together (cover The Beatles)
Glycerine
Comedown
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Fotografia: Cátia Agapito
Texto: Carolina Rocha
Agradecimentos: PEV Entertainment
Banda: Bush
Local: Coliseu dos Recreios, Lisboa
Data: 2 de setembro de 2012
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