É num Chiado abafado e atarefado que encontro Virgul e B@ssman, dos Nu Soul Family. Teria considerado ironia do destino o fato de ouvir as notas do refrão de "This is For My People", single do primeiro álbum da banda, saídas de um trompete de um jovem que se apoiava no muro da boca do metro da Baixa/Chiado, assim que saio da estação. Na verdade, assim que menciono essa ocorrência, ambos riem. Tinham estado a ouvi-los e falaram com eles: não existem coincidências.
“Para quem diz que Portugal não tem bons músicos, há aí muitos maus ouvidos. As pessoas prestam pouca atenção e têm tendência a mudar de rádio quando ouvem uma música portuguesa. Devia ser exatamente ao contrário,” comenta B@ssman, de sorriso nos lábios e inclinado para a frente, espontâneo. É um modo perspicaz de encarar como a sociedade portuguesa encara a música.
Mas quando pergunto se alguma vez consideraram introduzir a Soul no espetro auditivo português como um risco, Virgul, conhecido também por outro grande projeto português – os Da Weasel – admite que nem pensaram nisso, foi mais uma questão pessoal, afinal porque começaram o projeto como algo para se divertirem, “mas quando começamos a aperceber que havia pessoas que gostavam e que se calhar déssemos um bocado mais de nós, e acreditássemos no projeto, podíamos ir mais além. E as pessoas que vinham aos concertos, o nosso tempo de estrada, fez-nos aperceber que isto tinha pernas para andar”.
Afinal, o Soul, género musical que poderia definir a banda mas não a limita, é algo que vem disso mesmo, do espírito. “Para nós que fazemos música, quando fizemos Nu Soul Family não pensámos se seria um risco ou não, fizemos porque sentimos. De igual forma que cantamos em inglês porque sentimos. Fazemos as coisas porque gostamos e que sentimos que deve ser assim, dessa forma,” explica. “Eu penso que o Soul só veio trazer uma lufada de ar fresco e veio trazer coisas boas, porque é um género musical muito forte. Falando de mais bandas portuguesas – como Expensive Soul, por exemplo - que cantam em português e fazem-no mesmo muito bem. E é uma mais-valia para a música portuguesa. Eu acho que tirando riscos à parte as pessoas devem fazer aquilo que realmente se sentem bem e não se preocuparem com o risco.”
Ainda assim, o primeiro comentário abre uma porta a uma questão: há quem considere a indústria musical portuguesa algo diferente, ainda porque muitas bandas portuguesas que não são promovidas nos meios televisivos, considerados em muitos países – embora talvez cada vez menos - como o auge do mediatismo na cena musical, conseguem preencher a gosto salas de espetáculos. B@ssman aí tem algo de importante a dizer, especialmente no contexto atual. “A indústria musical em Portugal é uma coisa muito ambígua. Nós falamos em indústria quando existe uma máquina que funciona, quando tens empresas e entidades que fazem com que os músicos e a música funcionem no país. E nós infelizmente estamos a andar para trás. Nós perdemos o Ministério da Cultura, ou seja, perdemos uma entidade que nos defendia. Só temos uma entidade criada que é a GDA [Fundação Gestão dos Direitos dos Artistas, Intérpretes ou Executantes] que é metade particular e metade estatal. E a indústria portuguesa fica um bocado por aí. Se não temos quem nos defenda, se não temos quem nos promova, a indústria acaba por morrer um bocado. Já chega de nos queixarmos e temos de fazer com que as coisas andem para a frente, sem dúvida, mas a industria musical, se não formos nós a fazer, se não formos nós a percorrer, chegas à FNAC e tens 900 discos americanos, 200 ingleses, e 50 portugueses.”
Os jovens a tocar na rua são então exemplo de que a música portuguesa tem capacidade para ir muito longe, mas para isso é necessário investir. “Não é que não haja qualidade em Portugal a nível de músicos. O que há é falta de apostar nesses músicos.” Explica. “Quando eles [esses jovens] chegaram ao local para fazer o que iam fazer, o comentário que fizemos foi “não, eles vão mesmo tocar, mesmo? Com esta idade? Ainda por cima tocar sopros que não é uma coisa muito usual?” E eles tiraram os instrumentos, começaram a tocar e deixaram todos boquiabertos. Encheram a bolsinha que tinham de moedas porque as pessoas que estavam a passar estavam mesmo a gostar. Por isso, não há falta de músicos, não há falta de música. O que há é falta de aposta, falta de promoção, falta de incentivos. Não tens de momento escolas em Portugal a lecionar música até ao 7º ano. Na Suécia és obrigado a ter música até ao 12º ano. Porque é que em Portugal não funciona assim? Porque não se dá credibilidade à musica em Portugal e daí teres perdido o ministério da cultura e o ministro da cultura.”
Ainda assim, para os Nu Soul Family, a situação atual não é sinónimo para baixar os braços, pelo que têm acabaram de lançar o novo álbum «Unconditional Love», no passado dia 17 de setembro. Estão “cansados mas felizes”, brinca B@ssman. “Andamos cansados porque estamos a trabalhar para Nu Soul Family e isso acaba por ser positivo. E fora isso, acho que está tudo bem connosco. Mas sou-te sincero, o trabalho de estúdio foi um bocado cansativo, são meses e meses e meses enfiados no estúdio, todos juntos, a trabalhar. Mas é um cansaço bom.”
Tal como a razão de ser do grupo, também o tema conectado ao álbum é muito pessoal e até familiar. “Sentimos a necessidade não só de ter esse amor incondicional pelas coisas que fazemos e pelas pessoas que temos e que nos rodeiam, mas também para chamar à atenção às pessoas que gostam de nós, os nossos fãs e para o mundo, disso mesmo: acho que as coisas se tornam muito mais fáceis quando nós gostamos delas como elas são,” diz Virgul, mais calmo mas igualmente introspetivo. “E em vez de andar com rodeios e tentar procurar as coisas, não havendo preconceito... Neste caso somos pais [tanto Virgul como B@ssman] ao longo desta pequena carreira que é a dos Nu Soul Family, e sentimos este Unconditional Love. E agora percebemos muito mais o que é e é gostarmos de algo sem medida e aceitamos as coisas como são e queremos usar isso mais com a nossa família e com os nossos amigos, com o nosso trabalho, com tudo o que a gente faz. É também um disco dedicado às nossas mães, que estão connosco desde sempre e tem um amor incondicional e que adoram aquilo que a gente faz e que nos apoiam. As mães andam sempre lá, com as revistas, na primeira fila, e isso é bom de se ter e de se sentir.”
Não só foi de dentro que vieram as diferenças entre este e o primeiro trabalho da banda «Never Too Late to Dance». Para além de influências audivelmente africanas, especialmente em temas como "Kunamanaie", na qual participa a cantora moçambicana Neyma, há também uma maior naturalidade na essência do disco. “Todos nós estamos muito ligados ao continente africano, mais concretamente Angola e Cabo Verde”, explica B@ssman. “E essa música foi uma música que nós começamos a fazer através de uma ideia do Dino. Foi o Dino que sugeriu o "Kunamanaie". É um bocado de uma palavra que identifica o hino à chuva, à dança, e por isso a essa vontade de brincar e curtir. E nós acabamos por trazer essa roupagem para um tema nosso porque achamos que faria todo o sentido.”
Quanto à própria composição, Virgul explica o porquê da maior instrumentalidade e a maior diferença entre os dois álbuns. “Acabou por ser uma coisa natural porque nós, ao criarmos, estamos sempre num estado de mutação e à procura de coisas diferentes daquilo que já havíamos feito. E essa necessidade aliada à maturidade vem também da necessidade de sentirmos que ao vivo tínhamos uma força que no primeiro disco não tínhamos. E então trouxemos essa roupagem, as pessoas que tocam connosco, para o disco, para ser muito mais fácil levar para a estrada, porque é assim que a gente se sente bem. Fica muito mais fácil produzir e transformares isso em estrada. E é essa a grande diferença, o componente deste novo disco: deixamos o digital de lado, e trouxemos sopros e cordas que tínhamos já no primeiro, mas tivemos mais cuidado. Acaba por ser mais funky, mais orgânico.”
Essa orientação para os palcos é, afinal, o que define a banda como algo de novo, sendo dos poucos grupos a criar música de dança com instrumentos orgânicos e não sintetizadores. É esse um dos trunfos que permitiu aos Nu Soul Family para ganhar o prémio New Portuguese Act da MTV, um prémio baseado na votação do público. “O MTV é um prémio muito importante para nós e para qualquer músico que o ganhe,” afirma B@ssman. “É um pouco aquilo que tens de retorno daquilo que dás, e o prémio MTV foi isso mesmo, ou seja, nós demos às pessoas, as pessoas retribuíram com muito carinho e a MTV mostrou que isso aconteceu e existiu. Ou seja, o prémio em si não foi muito importante porque não damos muito valor aos bens materiais, ou não deveríamos dar. Mas simboliza muito aquilo que as pessoas apostaram em nós e aquilo que nos deram.”
Outro trunfo é a sua ligação à própria origem da Soul, pois Virgul desloca-se até aos Estados Unidos para criar a parte lírica dos álbuns. Um dos singles incluídos neste último álbum, "It’s Whatever You Want", foi filmado em plena Nova Iorque. “O It’s Whatever You Want foi um single que a gente lançou e depois incluímos neste disco. Tivemos a sorte de ter uma editora que nos apoiasse e nos desse budget para irmos aos Estados Unidos para filmar, o que não é fácil. Quando falamos de que o disco foi feito entre os Estados Unidos e Portugal, foi a parte lírica; já no primeiro disco também assim foi. E sinto-me melhor quando lá estou; quando penso e sonho em inglês, é tudo muito mais fácil. E então eu tiro uma temporada para estar até mesmo fora daqui. Sabe-me bem estar lá, a compor, e depois venho para aqui e junto-me com o resto da banda para então gravarmos e compor a parte musical.“
Este último álbum terá uma festa de lançamento no Ritz Club, em Lisboa, no dia 26 de setembro. Esta poderá ser acedida pela promoção na FNAC: Na compra de «Unconditional Love», é oferecido o primeiro CD da banda, «Never to Late to Dance» e a entrada para o concerto. Quando se pergunta que bebida se deve optar para ouvir o álbum, B@ssman e Virgul concordam na mesma opção: “Vinho tinto. O álbum é tão eletrizante que é melhor o vinho tinto para me relaxar um bocadinho. Se bebesse outra coisa que me deixasse mais alegre, se calhar partia a casa toda.”
[ENTREVISTA]: NU SOUL FAMILY
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