[CRÍTICA]: WALTER BENJAMIN | THE IMAGINARY LIFE OF ROSEMARY AND ME



A avaliação deste álbum não é fácil. A melhor forma de o caracterizar será mesmo pela sua 'temperamentalidade', ou pela variedade de reações que despoleta consoante o temperamento de quem o ouve. É decidido pela disponibilidade e predisposição para alguém parar e pensar um pouco sobre o que está a ouvir, ou só mesmo desfrutar de um ritmo que quase roça em bossa nova.

Ao longo dos primeiros temas, a característica mais rápida e mais imediata é a voz. Os sussurros de Walter Benjamin são apelativos - soam bem nos headphones, sem nos deixar completamente desorientados, pois parecem-nos fisicamente muito próximos. Após ter assistido o seu concerto com os seus most wasted friends, nota-se que através dos speakers, ao vivo, não atinge o mesmo nível de intimidade e intensidade; mas numa varanda, num terraço, ou mesmo numa sala, já percorre o espaço e preenche-o bem, sem o invadir. Mas este é um álbum que passa quase despercebido como música de acompanhamento a um jantar. É música que não interrompe uma conversa, mas acompanha bem uma sessão de estudo de modo a não incomodar as linhas de pensamento de quem estiver a ouvir, sem cair no minimalismo mais obscuro e extremamente introspetivo que tendem as canções de cariz mais calmo.

Com temas quase Beckianos na desconstrução de algo que à primeira escuta é quase nonsense, é em volta de líricas ilusoriamente naíves que se construiu uma composição que só mesmo alguém que se dedica na produção durante muito tempo, com a dedicação e paixão por isso, pode fazer. High Speed Love é dos momentos mais altos do álbum, mas não pelo seu conteúdo lírico, embora tenha um tema sobre a futilidade dos amores que aparecem nos meios mediáticos que é de se apreciar.

Ainda porque as canções de Walter Benjamin não deveriam ser só música de companhia, pois tratam de amores que não chegam a acontecer, de interesses e histórias de pessoas demasiado voláteis para tentar apanhar. De certo modo, é como fumo, escapa-nos sempre pelo meio dos dedos. Não são histórias cliché, mas aquelas que acontecem nos nossos carros, enquanto se olha vaziamente para a nossa mesa-de-cabeceira após uma noite mal dormida, ou quando se acha que a chávena de café nas nossas mãos é melhor do que ambrósia. Puxam por nós, por isso, muito facilmente.
This Ain’t Our Last Dance revela um single mais catchy, algo que nos chama um pouco mais nem que seja para abanar a cabeça. Para os menos “preguiçosos” – e é difícil, pois o easy listening do álbum é tão easy que nos deixa completamente relaxados, - é altura para parar, pensar “espera, vamos lá ouvir o disco desde o início” e entender as subtilezas de produção. Entretanto, Airports and Broken Hearts, single com maior cobertura mediática deste álbum, chega-nos de mansinho, como se um amigo de repente decide surpreender-nos e trazer uma caipirinha, assim do nada. É agridoce, um pouco tropical, mas não cansa, não se atreve em passar para um lado mais abrasileirado, nem às suas telenovelas, apesar de tratar de temas muito abordados por estas, e que são explorados em demasia por muitos outros músicos românticos.

É essa a inteligência emocional que o álbum de Walter Benjamin traz. Perde-se o tema pela sua curta duração, mas o bom está feito como indicativo do potencial que existe. É aquele conjunto de canções que se mantém no espetro de que está lá mas não quer impor nada a ninguém. Que o sussurrar ao ouvido de Walter não é só feito de vozeirões ou dramas shakesperianos – basta os nossos - e isso é preciso na indústria portuguesa. Porque para se ouvir bem não é preciso gritar.


01. Our Imaginary House
02. High Speed Love
03. Under Your Dress
04. Twenty Four
05. This Ain't Our Last Dance
06. Airports and Broken Hearts
07. Mary
08. Your House

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Nota: 7/10
Crítica por: Carolina Rocha
Músico: Walter Benjamin
Álbum: The Imaginary Life of Rosemary and Me

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