Santa Maria da Feira abriu as portas esta sexta-feira, na sua sétima edição, ao Festival para Gente Sentada. Este é um evento dedicado a géneros musicais mais alternativos que aposta em artistas em franca ascensão de carreira mas que, ainda assim, estão longe de ser conhecidos do grande público. Assim se explica a presença, em anos anteriores, de nomes como Devendra Banhart, Patrick Wolf, Sparklehorse, Richard Hawley ou Bill Callahan, músicos que entretanto ganharam um estatuto mediático bastante promissor mas que, à data, foram dados a conhecer a uma pequena minoria neste festival. Para ouvir e sentir, marcar a diferença pela originalidade ou simplesmente para apresentar uma alternativa à música de massas, o Festival para Gente Sentada é já uma referência nacional para todos aqueles que apreciam um ambiente mais intimista e de qualidade.
Nesta sétima edição, o primeiro dia esteve entregue exclusivamente a músicos portugueses: Nuno Prata, B Fachada e Legendary Tigerman. Caso para dizer: o que é nacional é bom.
À hora marcada, num palco adornado com cadeiras suspensas numa cortina negra, o professor e ex-baixista dos Ornatos Violeta começou o espectáculo acompanhado por Nico Tricot e António Sérginho. O que mais saltou à vista, para além da notória modéstia, competência e descontracção dos companheiros de palco, foi a parafernália de instrumentos utilizados ao longo da actuação: entre xilofones, pandeiretas, serrotes, caricas, djembês, garrafas e folhas de plástico houve até tempo para eles se aventurarem numa versão apunkalhada dos Violent Femmes. Nuno Prata aproveitou para fazer referência ao seu mais recente trabalho, Deve Haver, lançado em Outubro do ano passado, não esquecendo pequenas incursões ao álbum de 2006. Canções como Cala-te e Come ou Estar tudo mal não te traz saúde nenhuma, reflectem algumas questões pertinentes do quotidiano, a nostalgia e a obrigatoriedade de olhar para o passado ou o humor como forma de arrepiar caminho. Confirma-se a boa disposição em palco e o à vontade com que os músicos alternam instrumentos variados contribuindo para uma sonoridade insólita e agradável. Nuno Prata despediu-se conforme os caprichos da flauta e o público respondeu com palmas a Essa dor não existe. Houvesse mais tempo e todos os dias fossem estes. Isso nós sabemos, fiquem descansados.
B Fachada foi a surpresa da noite. Se há uns dois anos era quase desconhecido, o mesmo não se pode dizer dos tempos que correm. A alegria e excentricidade disfarçada de delicadeza do cantautor contagiou os presentes e, dedique-se ele a música para miúdos ou graúdos, a verdade é que a intenção de despertar consciências (mesmo em gente sentada) foi imediatamente conseguida. B Fachada desconstruiu velhos ditados populares e disse mesmo que é preciso começar a praticar a desobediência para não ficar moralizado. Mas como é que se pode falar tão a sério num som despido e numa voz tão doce? A curiosidade chegou fora de horas quando alguém perguntou: "Conheces o Tó-Zé?" E depois muito riso porque, coitado, é um pau mandado. Com contrabaixista e baterista a acompanhar, levantou questões de moral e, mais tarde, entregou-se finalmente às canções de gente grande. Em pouco tempo – não foi mesmo preciso esperar muito – encontramos pessoas a bater o pé ao som de Estar à espera ou procurar. Todos sentados, é certo, mas foi o suficiente para B Fachada achar que ali se gostava mais dos assuntos importantes da vida adulta. Mentira, mentira. Logo a seguir disse-nos que era tempo de cantar e nós obedecemos, tal e qual crianças com vontade de brincar. Foi uma hora a desbravar música - que passou a voar - sem que ninguém adormecesse: a afirmação cada vez mais evidente de um músico de talento invulgar que tanto estimula como embala, isto enquanto o diabo esfrega um olho.
Pensar em Paulo Furtado, digo, Legendary Tigerman e associá-lo a um festival para gente sentada é uma tarefa difícil de imaginar-se. No entanto, ao homem tigre coube a missão de encerrar o primeiro dia do evento. E ele ali marcou presença, enfrentou o palco sozinho – sem as mulheres de Femina, álbum que lhe trouxe maior visibilidade – apenas artilhado dos muitos instrumentos à sua volta e de dois ecrãs gigantes que, de vez em quando, projectavam imagens de mulheres sensuais e cowboys solitários – imagens recomendáveis apenas a maiores de 18 anos ou como quem diz: se estiveres incomodado fecha os olhos, se fazes favor. Legendary Tigerman é conhecido pela sua espontaneidade em cima do palco, sabe-se que gosta de provocar o seu público mas não se esperava que, num festival de gente sentada, se lembrasse de pedir que todos se levantassem, dançassem, enfim, fizessem o que quisessem. Uma espécie de rebelião consentida. Algumas pessoas ficaram incrédulas, outras decidiram timidamente aceder ao pedido, mas ninguém subiu para cima do palco. Os blues não correram pelas veias, como de costume. Não foi a primeira vez que o artista tocou em Santa Maria da Feira, e - talvez por isso mesmo - partilhou uma música (Say hey hey hey) com João Doce, filho da terra, como lhe chamou. Este foi o único convidado da noite, para além da participação virtual de Lisa Kekaula em The saddest thing to say, momento que proporcionou a maior ovação da noite. Passando por êxitos consagrados como Route 66, Legendary Tigerman abandonou a sala depois de uma interpretação pouco compreendida de Big black boat. "Isto é um barco", disse ele. E enquanto uns se dirigiam para a saída, outros já tinham as baterias apontadas para o dia seguinte, com Piano Magic, Laetitia Sadier e Spokes no pensamento.
Alinhamento Nuno Prata:
Hoje Quem?
Guarda bem o teu tesouro
Não, eu não sou um fantasma
Refrão-Canção
Se acabou, acabou
Isso foi antes / It used to be (Cover dos Violent Femmes)
Estar tudo mal não te traz saúde nenhuma
Cala-te e come (Expiação do Derrotado)
Um dia não são dias
Essa dor não existe (Tu isso sabes, não sabes?)
Alinhamento B Fachada:
Inquietação
A casa do Manel
Agosto
Tó-Zé
Questões de Moral
Larga a sopa João
O primeiro dia
Dia de Natal
Estar à espera ou procurar
Tempo para cantar
Memórias de Paco Forcado
Alinhamento Legendary Tigerman:
Life ain’t enough for you
Thirteen
Route 66
Walkin’ downtown
Light me up twice
Naked blues
She is a hellcat
River on the other side
Say hey hey hey (Com João Doce)
Hey, Sister Ray
The saddest thing to say
I Just Wanna Know (What We’re Gonna Do)
Big black boat
Fotos: Ricardo Silva
Texto: Vanessa Silva
Agradecimentos: Ritmos
Festival | Cantores: Festival Para Gente Sentada | Nuno Prata | B Fachada | The Legendary Tigerman
Local: Cineteatro António Lamoso, Santa Maria da Feira
Data: 18 de Março de 2011
Myspace Oficial dos Cantores: Nuno Prata | B Fachada | The Legendary Tigerman
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